Indústria da moda se mobiliza por sustentabilidade

Acusado de poluir e contratar força de trabalho irregular, setor amplia adoção de boas práticas de responsabilidade social e ambiental. Consumidor é o protagonista na transformação da cadeia

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Uma hora vira lei e todo mundo é obrigado a adotar práticas sustentáveis. Mas por enquanto são apenas algumas pessoas pensando nisso — Glória Kalil

São Paulo, SP, 06/12/2018 –

Quantas peças de roupa nova você compra por ano? Segundo o World Resources Institute, um instituto de pesquisas sem fins lucrativos, a indústria da moda produz 20 peças de roupa por pessoa por ano. A população da Terra é de cerca de 7 bilhões de pessoas, no entanto, produz, em média, 140 bilhões de novas peças de vestuário a cada 365 dias. Isso significa que, todos os dias, nada menos que 383 milhões de peças são produzidas – são incríveis 4,4 mil peças por segundo.

Parte importante dessa produção, segundo o mesmo centro de pesquisas, existe para dar conta da demanda gerada por um segmento específico da moda que tem cada vez mais força: a chamada fast fashion.

Na moda tradicional, as marcas agrupam suas coleções para atender a demanda gerada pela dupla de estações mais frias e a dupla de estações mais quentes do ano. Ou seja, há uma coleção para primavera-verão e outra para outono-inverno. Não à toa, boa parte das grandes semanas de moda do mundo se organiza dessa maneira.

Na fast fashion, porém, semanas ou até pequenos intervalos de dias podem ser considerados minitemporadas. Hoje, estima-se que esse segmento da indústria trabalhe com um número mínimo de 50 coleções ao ano e máximo de 100. Com isso, uma nova coleção é lançada a cada 3 dias ou 7 dias. Isso barateia cada peça, já que o volume é muito maior, mas também encurta o ciclo de uso e incentiva o descarte, aumentando o desperdício.

Atender a demanda por matéria-prima e mão de obra que essa sucessão de ciclos de produção exige não é simples. “Cerca de 70% de toda a fibra fabricada no mundo é sintética”, diz Luciana Bueno, figurinista, cenógrafa, diretora de arte e cofundadora do Banco de Tecido, que recoloca no mercado sobras da indústria têxtil por meio de venda e permuta. “O problema da sustentabilidade na moda precisa ser encarado por toda a cadeia”.

PRODUÇÃO DA INDÚSTRIA TÊXTIL
A China é, disparada, a maior produtora têxtil do mundo, responsável por 50% da produção de tecido do planeta. Isso a coloca muito à frente da Índia, segunda colocada, com 6% da produção e EUA em terceiro lugar, com 5%. Dados do Instituto de Estudos e Marketing Industrial colocam o Brasil em quinto lugar, à frente de todos os países da América Latina, como México, que ocupa o 11º lugar, e países europeus, como a Alemanha, em 15º lugar.

Hoje, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil, o Brasil é o único país no ocidente a executar a cadeia completa da moda, ou seja, sustenta, internamente, desde a plantação de algodão e produção de fios e fibras, até confecções, varejos e desfiles de moda internacionais. No país, o setor é o segundo maior empregador – perdendo apenas para alimentos e bebidas – e conta 1,479 milhão de trabalhadores diretos e 8 milhões indiretos (dos quais 75% são mão de obra feminina).

O diretor de cinema Andrew Morgan lançou em 2015 seu documentário “The True Cost” (“O custo real”, em tradução livre), discutindo a cadeia de produção, distribuição, publicidade, desperdício e também a escravidão que faz parte da indústria. Com salários baixos, carga horária pesada e condições precárias, 40 milhões de trabalhadores em todo o mundo comprometem suas vidas para manter o ritmo da produção.

Plantações de algodão que recebem pesticidas afetam a saúde de agricultores e o meio ambiente, mas os tecidos sintéticos – cuja produção é mais barata, fácil e rápida – coloca um novo problema na hora do descarte. “Se o tecido for 100% poliéster, você precisa tratar de um jeito. Se for 100% algodão, é outro trato. Com um tecido misto não tem como separar no fim da cadeia”, explica Luciana, do Banco de Tecido.

AUMENTO DO CONSUMO E SUAS CONSEQUÊNCIAS
Com roupas cada vez mais baratas, o consumo é facilitado, incentivando a aquisição pela experiência e não pela necessidade. Pesquisa de 2016 da McKinsey&Company mostra que o consumidor médio comprou, no ano de 2014, 60% mais itens de vestuário em comparação a 2000, mas cada peça é mantida em uso pela metade do tempo.

Mais: até 2030, 5,4 bilhões de pessoas no mundo farão parte da classe média, demandando bens e serviços compatíveis com o estilo de vida propiciado pela faixa de renda. Publicação do Brookings Institute alerta que, se o consumo continuar na taxa atual, precisaremos de três vezes mais recursos naturais até 2050 em comparação com o que usamos em 2000.

O algodão é a fibra natural mais comum usada para confeccionar roupas, respondendo por cerca de 33% de todas as fibras encontradas nos têxteis, mas sua planta é uma safra exigente: 2.700 litros de água – o que uma pessoa bebe em dois anos e meio – para fazer uma única camiseta de algodão, de acordo com o WWF, que promove práticas sustentáveis no uso de recursos hídricos na agricultura.

O uso intensivo da água também ocorre durante a produção de roupas. Estudo da Natural Resources Defense Council (NRDC) constata que a indústria de vestuário é uma das maiores poluidoras do planeta. As fábricas têxteis usam 5 trilhões de litros de água por ano apenas para tingimento de tecidos, o suficiente para encher 2 milhões de piscinas olímpicas, segundo relatório da Global Leadership Award in Sustainable Apparel (GLASA). A mesma indústria gera um quinto da poluição industrial da água do planeta com cerca de 20 mil diferentes produtos químicos.

Sustentabilidade na São Paulo Fashion Week

Em artigo exclusivo para bluevision, Paulo Borges, fundador da São Paulo Fashion Week (SPFW), uma das mais importantes semanas de moda do mundo, detalha o que tem sido feito para tornar o evento mais sustentável.

O QUE A SOCIEDADE PODE FAZER A RESPEITO?
São muitas as partes que fazem a indústria da moda, mas duas são especialmente importantes no desenvolvimento da sustentabilidade do setor: quem produz e quem compra roupa. Ambas as partes precisam estar cientes de que usar recursos naturais indiscriminadamente tem consequências importantes e negativas a todos. E já tem gente agindo dessa forma.

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